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A questão humanitária no Haiti é notória, resultado de uma soma histórica de escravidão, corrupção, ditaduras e catástrofes naturais. Por conta disso, é muito comum que a população haitiana emigre para outros países em busca de melhores condições de vida.

Foi o que aconteceu com Geranise Sanelien. Ela tinha uma imensa dificuldade em encontrar trabalho em seu país. Deixou o marido lá e partiu em busca de oportunidades. A princípio, se instalou no Chile e, mais tarde, acabou vindo para o Brasil. Mal sabia ela que sua chegada desembocaria em algo muito maior.

No ano passado, o subcomitê de Cultura do grupo de Diversidade & Inclusão da unidade de Montenegro, liderado pelo funcionário Mikael Nöremberg, buscava uma instituição que desenvolvesse trabalhos interessantes relacionados à questão racial. A ideia era compartilhar experiências com os funcionários da unidade por ocasião do Dia da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro.

Acabou descobrindo o Centro Batista de Acolhimento Social (Cebras), instituição social civil sem fins lucrativos, que tem o objetivo de socializar imigrantes e refugiados que chegam ao município de Canoas (RS). Lá, cerca de 700 imigrantes recebem aulas de português, encaminhamento para empregos, orientação para a busca por moradias e questões relacionadas à documentação para a permanência no País, além de terem acesso às políticas públicas de educação, saúde, habitação e assistência social. O Centro Batista atua também com o atendimento emergencial das necessidades básicas de sobrevivência, como a doação de alimentos, produtos de higiene e limpeza, roupas, calçados, cobertores, lençóis, travesseiros, utensílios domésticos, móveis etc.

Mikael Nöremberg e membros do subcomitê de Cultura do grupo de Diversidade & Inclusão da fábrica da John Deere em Montenegro (RS)
Rodrigo Picada e membros do subcomitê de Cultura do grupo de Diversidade & Inclusão queriam, no início, compartilhar experiências com funcionários por conta do Dia da Consciência Negra

O subcomitê entrou em contato com a entidade e facilitou a visita de integrantes à unidade. E o relato dos convidados sensibilizou os funcionários: muitos dos beneficiados são de origem haitiana, que buscam reconstruir suas vidas no Brasil.

“Eles motivaram todo o público trazendo sua realidade. Mesmo com condições de vida tão difíceis, com pouco trabalho, exploração, desastres naturais, falta de saneamento básico e moradia, eles estão sempre sorrindo”, relata Mikael.

Iniciativa ganha novas dimensões

A visita levou ao público da John Deere conhecimento sobre ações sociais muito interessantes realizadas pela Cebras. A fim de contribuir com a causa, um grupo de funcionários se reuniu para levantar doações de alimentos, itens de higiene pessoal e limpeza para a ONG. No meio do processo, descobriram também a oportunidade de doar computadores, que seriam muito úteis nas aulas e treinamentos oferecidos aos imigrantes. Então, já que estavam no meio do caminho, decidiram ampliar a ação.

Em agosto deste ano, o time de TI da unidade de Montenegro, em conjunto com a equipe local de Service Desk do fornecedor Cognizant e o apoio da Fundação John Deere, realizou uma ação voluntária na sede da Cebras. Outra grande ajuda foi o apoio que o time ofereceu para que a ONG pudesse participar do Programa de Doações Techsoup Brasil, que organiza as doações de softwares de grandes fabricantes como Microsoft, Google e Symantec, para ONGs em todo o mundo.

O Grupo de 12 voluntários montou um laboratório de informática e reformou a sala de aula do espaço. Foi feita a montagem dos computadores, instalação dos sistemas e configuração da rede com acesso à internet, além da confecção de mesas e pintura das paredes. Também foi instalado um projetor com tela retrátil automática e uma TV

O relacionamento da John Deere com a Cebras não se restringiu apenas à visita ou ao trabalho voluntário na sede. Tendo em mente a importância que a companhia dá para a questão da diversidade, surgiu a pergunta:

E se imigrantes fossem contratados para trabalhar na empresa?

A partir dessa ideia, foi feito um alinhamento entre o Comitê de Diversidade & Inclusão, o time de RH e a empresa que conduz o processo de recrutamento e seleção. Nesse caso, foi elaborado um processo especial, que levasse em conta as condições dessa população para participar de um processo seletivo em outro país e com um nível diferente de qualificação profissional.

Durante o processo, porém, o entrosamento e motivação dos candidatos surpreendeu, e o que a princípio eram duas vagas para um projeto experimental com os imigrantes acabou se tornando cinco. Embora o objetivo maior fosse inserir no mercado de trabalho pessoas em situação de vulnerabilidade social, a iniciativa é também um enorme aprendizado para os funcionários da John Deere. Para saber como conduzir o processo, parte da equipe fez um benchmarking com empresas que fazem ações semelhantes.

O imigrante haitiano Lucson Derice trabalhando na Linha Final da fábrica da John Deere em Montenegro
Lucson Derice, após passar no processo seletivo, começou a trabalhar na Linha Final

A equipe da John Deere definiu um padrinho para cada imigrante, que o orienta no dia a dia e ajuda na integração e adaptação. Periodicamente, uma assistente social faz uma visita e conversa com os imigrantes, seus padrinhos, supervisores e integrantes do Comitê de Diversidade & Inclusão. Todos eles participaram de treinamentos para lidar melhor com o novo contexto.

“Fazemos acompanhamento semanal para verificar se eles estão com alguma dificuldade, se estão bem adaptados. O processo de acolhimento e inclusão é bem importante para a diversidade, nos traz uma experiência enriquecedora por nos colocar em contato com culturas diferentes, com essa troca de informações. E, acima de tudo, mostra que o Brasil é um país que acolhe as pessoas.”

Cristiana Rojas, assistente social

Geranise foi contratada para trabalhar na área de Cabines; Lucson Derice foi para a Linha Final; a Logística recebeu três imigrantes: Renold Laurent está no Abastecimento, enquanto Extenson Thelus e Marie Ken Berline Jean Charles foram para o Recebimento.

O haitiano Extenson Thelus trabalhando na área de Recebimento da fábrica da John Deere em Montenegro
Após ingressar na John Deere, Extenson passou por treinamento e tem acompanhamento, tanto de assistente social quanto de colaboradores da empresa
A haitiana Marie Ken Berline Jean Charles trabalhando na área de Recebimento da John Deere em Montenegro
Processo seletivo que resultou na escolha de Marie Jean Charles levou em conta as dificuldades de estrangeiros em concorrer a uma vaga num país distante

O desafio de adaptação à cultura local
Uma das selecionadas foi Geranise, que já está na companhia há oito meses. A moça ainda tem bastante dificuldade para se comunicar em português. “Eu compreendo melhor do que falo”, explica. Mas conseguiu se adaptar bem ao trabalho e à cultura do País. “Fiquei muito contente com a receptividade dos brasileiros e com o respeito no tratamento com os imigrantes”, relata.
Seu objetivo de reconstruir a vida está sendo bem-sucedido, tanto que ela pôde reencontrar seu marido, que havia ficado no Haiti quando ela partiu em direção ao Chile, ainda no ano passado. Ela até já pensa em fazer faculdade no ano que vem – só está em dúvida se estuda psicologia ou administração com foco em recursos humanos.
Essa nova fase na vida de Geranise é resultado da determinação e da solidariedade de muitas pessoas, que se uniram para fazer o bem ao próximo. E a emoção de ver a vida finalmente dando certo é a emoção também de muitas pessoas que estão vendo seu sonho realizado. Geranise, afinal, tem muitos motivos para sentir gratidão: “Eu gosto de tudo aqui no Brasil. Não consigo escolher uma coisa preferida”, conta.

A haitiana Geranise Salenien trabalhando na área de Cabines da Fábrica da John Deere em Montenegro
Geranise reencontrou o marido, que havia deixado no Haiti, e já pensa em fazer faculdade de Psicologia ou Administração
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