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    Quarta-feira, dia 4 de novembro de 2020. Dartanian Marmitt postava em seu perfil do Facebook uma foto de uma SLC 65 – A. Aquela havia sido a primeira colheitadeira produzida no Brasil, em 1965, que no dia seguinte, completaria 55 anos de lançamento, mais especificamente em Horizontina.

    Quem conhece um pouquinho da história da John Deere ou da agricultura sabe da revolução que uma máquina como essa causou. Mas, para Dartanian, essa história é ainda mais especial. E, embora ele tenha apenas 32 anos, quando ele começa a contar, você jura que ele esteve lá o tempo todo.

    Com nome inspirado no personagem D’Artagnan, de “Os três mosqueteiros”, o nosso personagem gaúcho é um grande contador de histórias.

    Colheitadeira SLC 65 - A em atividade na colheita de trigo
    Colheitadeira SLC 65 – A, primeira automotriz produzida no Brasil, foi uma revolução para produtores de trigo, linhaça, soja e arroz

    Ele sempre se interessou pela origem das coisas, como as gerações passadas criaram o que se tornaria o mundo que conhecemos hoje. Vivendo em Horizontina, isso sempre ocorreu de maneira muito natural ao seu redor.

    Memória Afetiva

    A cidade começou a ser colonizada pelo engenheiro Frederico Jorge Logemann, o mesmo que, em 1945, fez sociedade com Balduíno Schneider para fundar a Schneider & Logemann Cia. LTDA, a SLC – que, mais tarde, seria adquirida pela John Deere. Nomes importantes assim costumam ficar sempre longe dos meros mortais. Mas não era o caso. A nora de um dos fundadores era professora de geografia de Dartanian, e alguns netos eram seus colegas de escola.

    A SLC produzia equipamentos agrícolas, e toda a cidade foi se formando ao redor da fábrica. Com o advento da colheitadeira automotriz e o rápido crescimento da empresa, aquele galpão no centro da cidade, com tantas coisas construídas ao redor, já não tinha mais como expandir. A SLC, então, inaugurou sua nova unidade no distrito industrial, e as antigas instalações passaram a ser conhecidas como Fábrica 1.

    Sendo um município com 19 mil habitantes, todo mundo em Horizontina ou trabalha ou conhece alguém que trabalha na John Deere. E com Dartanian, não foi diferente. Seu pai, seu irmão, alguns tios e padrinhos eram funcionários da companhia. Era como se seu destino estivesse traçado. Da mesma forma que D’Artagnan, o mosqueteiro, seguiu os passos do pai para ser um cavaleiro do rei, Dartanian, o engenheiro, que hoje desenvolve processos de materiais para novos Produtos, seguiu os passos do pai para fazer parte do time da John Deere. Logo que entrou no ensino médio, se candidatou para o Programa de Aprendizagem da companhia, em 2003. Passou na prova e foi para o Senai para fazer curso de mecânico multifuncional e ajustagem. Do Senai, foi direto para a fábrica, onde está até hoje!

    Logo que se tornou adulto, Dartanian passou a fazer parte do Rotary Club da cidade – que foi fundado por quem? Sim, pelos criadores da SLC. Ali, convivia de perto com funcionários das antigas da fábrica e ouvia diversas histórias, das mais épicas às mais prosaicas.

    Dartanian Marmitt e a linha de tempo com a história da John Deere na fábrica de Horizontina (RS)
    Poucas pessoas se sentem tão confortáveis para falar sobre a história da John Deere como Dartanian Marmitt. Ao ir do Senai direto para trabalhar na empresa, ele seguiu os passos do pai, irmão e de alguns tios

    “Minha carteira profissional só tem uma assinatura, a da John Deere”

    Dartanian Marmitt

    Conversando com um e com outro, Dartanian foi remontando a história toda até se tornar quase um especialista no assunto. Ele ficou sabendo, por exemplo, da aventura que foi desenvolver um motor para a primeira colheitadeira, aquela de 1965. Como a SLC não produzia o equipamento, Logemann saiu em busca de um parceiro, e foi parar em São Caetano do Sul (SP), onde fica a fábrica da General Motors. Lá, discutiu com os engenheiros para adaptar motores de caminhão para fazer a colheitadeira funcionar.  Após vários meses de projeto, veio a pergunta: “De quantos motores vocês precisam? E veio uma resposta pra lá de inesperada: “apenas dois.”

    Conheceu o seu Alberto Bender, um mecânico que entrou na empresa em 1957 e que foi o responsável por tornear os cilindros da primeira colheitadeira. Alberto lhe contou da comoção que tomou conta da pequena Horizontina quando a máquina ficou pronta. Durante dias, havia expectativa de que ela finalmente entrasse em operação. E o boca a boca foi muito rápido. Tão logo o motorista, Arnaldo Ullmann, ligou a máquina, resolveu dar uma volta fora do pátio da empresa e levou para as ruas da pequena Horizontina.

    Os moradores pra lá de entusiasmados foram andando atrás, transformando o momento em um emocionante cortejo – mal sabendo o tamanho da revolução que estava em andamento com a fabricação daquela máquina.

    Lançado o produto, era preciso vendê-lo. Para isso, seria necessário fotografá-lo para fazer anúncios. Acontece que a máquina não tinha logo nem nada. Quem resolveu isso foi o seu Elemar Beck, que Dartanian também conhecia dos encontros no Rotary Club. Na noite anterior ao lançamento, ele fez moldes de fita crepe na lataria da máquina, passou o pincel, e lá estava oficialmente logo da SLC 65 – A. Dartanian conseguiu até uma foto da carta que Logemann enviou para o então presidente da República, Humberto de Alencar Castelo Branco, anunciando a boa nova.

    Desfile das colheitadeiras SLC 65 - A nas ruas de Horizontina (RS) entusiasmou a população da cidade.
    A história de Horizontina, de seus moradores e da John Deere estão entrelaçadas. Não à toa, o desfile das colheitadeiras SLC 65 – A levou toda população às ruas
    Carta da SLC ao presidente brasileiro Castelo Branco sobre o lançamento da SLC 65 - A, primeira colheitadeira automotriz de fabricação nacional
    A primeira colheitadeira automotriz de fabricação nacional revolucionava a agricultura e mostrava o vigor da indústria brasileira, como sinalizava carta da SLC para Castelo Branco, presidente da República à época

    Minimuseu em casa

    A história de Horizontina se mescla à história da John Deere no Brasil, e é difícil diferenciar uma da outra. E tudo isso ia surgindo na vida de Dartanian muito naturalmente. O rapaz foi juntando livros, objetos e recortes de jornal para remontar cada período, cada detalhe. Até montou o “cantinho da John Deere” em sua casa, com praticamente um minimuseu. E conversar com ele é uma divertida viagem ao passado. “Eu ainda vou estudar história um dia”, conta.

    Quando foi aos Estados Unidos, fez questão de visitar um local que talvez ninguém imaginaria que um dia tivesse ligação com o longínquo interior do Rio Grande do Sul: a residência do próprio John Deere, o fundador.

    Dartanian Marmitt visita a icônica casa contruída por John Deere, em Moline, no estado norte-americano de Illinois.
    Em viagem aos Estados Unidos, Dartanian Marmitt não podeira deixar de passar pela icônica casa construída por John Deere, em Moline (EUA), cidade que abriga a sede principal da Deere & Company

    “Sou como Forest Gump, o contador de histórias. O povo precisa conhecer o seu passado para saber como avançar para o futuro. Se não fosse por essas pessoas, não estaríamos aqui. E é isso que minha esposa, Raiza – que também é funcionária da John Deere – e eu vamos passar para nosso filho, Raul”

    Dartanian Marmitt

    Triste Coincidência

    Poucas horas depois de postar aquela foto no Facebook celebrando os 55 anos da máquina, e marcar seu amigo Elemar na postagem, Dartanian recebeu uma triste notícia. O seu Elemar, o responsável pela pintura do logo da primeira SLC 65, acabara de falecer. Assim como no lançamento, quando ele pintou o logo um dia antes, resolveu partir um dia antes da comemoração dos 55 anos.

    Foto da época da primeira safra trabalhada pela colheitadeira SLC 65 - A, primeira automotriz de fabricação brasileira.
    Já são 55 anos desde a primeira safra trabalhada com a colheitadeira SLC 65 – A, fruto de anos de estudos e comprovação do poderio da indústria brasileira

    É uma história que chegou ao fim, mas será sempre lembrada com muito orgulho: alguém que, literalmente, ajudou a escrever a narrativa da cidade – e deixou uma marca no coração de muita gente.

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