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    Wagner Prudêncio tinha 17 anos quando descobriu que nem todas as crianças e adolescentes tinham acesso a uma vida confortável como a sua, com a certeza de um prato de comida e uma casa segura. Em uma apresentação de Karatê, arte marcial que praticava desde os nove, se deparou com um grupo de jovens atletas membros de um projeto social. Na conversa com um deles, um menino de cerca de oito anos, descobriu que aqueles pequenos caratecas saíam da escola e iam para o centro de esportes da Prefeitura de Jardim Alegre (PR) para treinar, e também comer, já que para muitos, a refeição lá oferecida podia ser a única do dia.

    O momento fez, em suas palavras, “outro Wagner nascer”. O novo Wagner foi atrás de Guilherme Carollo, seu sensei – forma como os professores são chamados no meio das artes marciais – e pediu autorização para dar aulas, com o objetivo de contribuir no projeto social que acabara de conhecer. “Ele viu com bons olhos e disse: vou te apoiar”, conta o Wagner de hoje, que aos 39 anos ainda dá aulas e toca a Associação Karatê Jardim Alegre, fundada por ele após a extinção do projeto onde ele deu seus primeiros passos no voluntariado.

    Ele lembra dos primeiros tempos da empreitada e de todos os desafios que precisaram superar. “Nas primeiras competições todo mundo sabia que a gente era de Alegre, porque a turminha não penteava o cabelo, andava descalça. Meus alunos não tinham quimono. A prefeitura tinha que comprar, mas demorou um pouco. Fomos competir de camiseta. Os outros participantes treinavam em academia, pagavam mensalidade, tinham quimono, agasalho. Os meus já estavam acostumados a andar descalços na rua, cada chute era um gol. Aí foram se destacando. Nós fomos campeões regionais, depois paranaenses, título de campeão brasileiro, vice-campeão mundial e foi indo, tenho bastante alunos que hoje fazem parte da seleção, tudo daqui de Alegre”, conta com entusiasmo.

    Wagner se divide entre as horas de trabalho como gerente na Cocamar Máquinas, concessionária da John Deere no município de Ivaiporã, na região norte do estado do Paraná, e as aulas que ministra.

    Do Jardim Alegre já saíram muitos campeões e outros ainda estão por vir, se depender da força e dedicação de Wagner Prudêncio

    A iniciativa atendia, antes do início da pandemia, cerca de 120 alunos a partir de 12 anos. “Acabamos com limite de idade porque as crianças pegam amor pelo esporte e depois você vai abandonar? Então faz 18 anos e pode continuar se quiser”, explica, lembrando que alguns alunos se tornam, inclusive, professores voluntários, multiplicando o potencial de transformação. “Hoje eu dou aula duas vezes na semana. Temos mais três senseis, todos formados aqui”. Com a pandemia, as aulas presenciais foram suspensas e estão retornando gradualmente.

    “Eu fui estudar, me formei em Educação Física, depois fiz pós em Psicologia do Esporte para aprender como tratar as crianças, os adolescentes e como usar a arte marcial para formar pessoas. Os alunos têm que mostrar o boletim e quem está com nota vermelha não pode participar de competições, nem trocar de faixa. No próximo boletim escolar a gente volta a conversar”

    Wagner Prudêncio

    A Associação não restringe o acesso de acordo com a renda. Assim, mesmo pessoas que não vivem em condições de vulnerabilidade social podem se beneficiar, garantindo dessa forma a integração social. “Se a gente divide, estamos excluindo também e isso não é legal”, pondera o professor. O município de Jardim Alegre tem cerca de 12 mil habitantes. O clima de interior possibilita que Wagner acompanhe a vida de seus alunos que, para treinar, precisam frequentar a escola e tirar boas notas. Ele cita, com orgulho, que há ex-alunos que hoje são policiais, advogados, atletas faixa preta e celebra: “Tudo saiu dali”.

    Os alunos do Karatê Jardim Alegre não costumam abandonar as aulas. Wagner adota algumas estratégias para os adolescentes valorizarem a oportunidade que estão recebendo. Uma delas é fazer com que todos arquem com os custos de seus quimonos. “Muitos alunos não têm família presente. A gente acaba se tornando uma espécie de pai, pela forma de educar, de orientar e de transparecer as coisas. Às vezes, a pessoa não tem essa transparência em casa. E aí você pensa: ‘nossa, mas é carente, como vai comprar quimono?’. Já vendemos sorvete, coxinhas e verduras. Tem que se virar para valorizar o resultado”, conta.

    Para adquirir os quimonos, os alunos ajudam na arrecadação de dinheiro com a venda de produtos pela cidade

    O projeto apoia os alunos também no início de suas vidas profissionais. Por meio de parceria com a Associação Comercial, os inscritos no Karatê Jardim Alegre, maiores de 16 anos, são indicados para vagas de emprego na cidade. A Prefeitura de Jardim Alegre também colabora, cedendo o espaço onde são realizados os treinamentos e ônibus para os deslocamentos.

    Conhecendo o mar

    Dentre as muitas experiências que o Karatê Jardim Alegre já proporcionou, Wagner se orgulha especialmente de uma: ter levado seus alunos para conhecer o mar. “Já fomos competir em Mato Grosso, Bahia, Rio Grande do Sul e assim vai. Mas um dia me deu um estalo e falei com os pais, pequei dois ônibus e levei 80 alunos para Guaratuba (cidade no litoral do Paraná) e para um parque aquático em Maringá. Eu e mais duas professoras passamos três dias lá com eles. E olha, sabe uma satisfação, quando a gente ganha alguma coisa? É um sabor melhor ainda quando vê as pessoas que você está educando ganharem”, lembra.

    Experiência inesquecível de levar 80 alunos e mais duas professoras para ver o mar. Três dias de muitos aprendizados na vida

    Ele explica que é algo como “a cria superar o criador” e compara com seu trabalho na Cocamar: “é da mesma forma quando você contrata na loja e seu vendedor faz uma venda, ou entrega algum produto. O que é melhor? Você faz junto ou ele faz sozinho? Mas como ele fez sozinho? Porque ele aprendeu, porque a gente mostrou o caminho para ele. Então é essa satisfação, conseguir fazer com que as pessoas façam – e façam bem”.

    Do tatame para a vida

    O karatê não é, para Wagner, apenas um esporte. É uma filosofia de vida, que o gerente da Cocamar leva para todos os seus ambientes. “Eu não tenho duas máscaras, que tira e põe. Na Cocamar eu sou gestor de pessoas, tem os processos, tem as vendas, tem as metas que a gente precisa bater, só que é o mesmo Wagner da Associação. Então, da mesma forma que lido com aquele pessoalzinho carente, converso, oriento, eu faço com a minha equipe, a mesma técnica. É tudo gestão de pessoas”, diz.

    O Karatê Jardim Alegre é especial na vida de Wagner, mas o agro e o trabalho com as máquinas da John Deere também são uma paixão, passada de geração em geração. Seu pai foi gerente na Nortrac, empreendimento dos mesmos proprietários da Horizon, empresa comprada pela Cocamar há cerca de dois anos e onde ele já trabalhava.

    No tatame, ou na concessionária Cocamar, Wagner recebe muito apoio e reconhecimento por seu trabalho

    “Fui vendedor de campo e, depois, assumi como supervisor de vendas. Hoje eu sou gerente da loja. São duas coisas bem distintas, mas sempre conciliei bem e meus patrões veem com bons olhos. Na Cocamar, eu nunca tinha comentado, mas, após o momento que descobriram o projeto… Nossa, só recebo apoio e elogio. São duas coisas que, se depender de mim, vão para o resto da vida”, planeja.

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