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    A criançada ficava curiosa com aquela máquina. Era uma motoniveladora que passava de vez em quando para nivelar as estradas de terra daquele vilarejo de São João da Reserva, no interior do interior do Rio Grande do Sul, em um município chamado São Lourenço do Sul, com menos de 40 mil habitantes.

    Era uma máquina toda curiosa – e para aqueles garotos de uns 10 anos, era uma verdadeira nave espacial. Primeiro por conta daquela imensa lâmina na parte da frente, que tornava plano o chão por onde passava e ainda girava, se movia para frente, para trás, para cima, para baixo. Segundo porque ela exigia um certo traquejo por parte do operador – que precisava ficar o tempo todo de pé.

    Foi nesse cenário que cresceu Paulo Herrmann, vice-presidente de Marketing e Vendas para a América Latina – ou presidente da John Deere no Brasil, como seu título é conhecido em todo o país.

    Seu primeiro idioma foi o alemão. Aliás, o único que falava até entrar na escola. A família tinha uma pequena propriedade de cinco hectares, na qual inicialmente plantava cebola, batata e tabaco. Posteriormente, incluíram culturas de maior valor agregado, como morango e aspargos. Era uma atividade que proporcionava o sustento básico: nunca faltou comida, mas tampouco sobrava dinheiro para pequenos luxos do dia a dia. “Não tínhamos nada de mecanização, então era tudo à base de tração animal, braçal, tudo muito pesado, de sol a sol.”

    Alemão foi o primeiro idioma aprendido pelo pequeno Paulo em São Lourenço do Sul

    O garoto não demorou para perceber que as coisas por ali não mudariam tão cedo. Então quem teria que mudar era ele. Para isso, havia duas possibilidades diante de si: ou entraria para o seminário para se dedicar à vida religiosa ou se matricularia no colégio agrícola. Ambos funcionavam como internato – o aluno contava com cama, comida e estudo.

    Naquele momento, ele tinha duas certezas. A primeira é que não queria mais lidar com a enxada. E a segunda era a falta de vocação para padre. Fez o exame de admissão e começou a estudar no colégio agrícola no município de Pelotas.

    Opção certa pelos estudos

    Apenas 60 quilômetros separam Pelotas do vilarejo de São João da Reserva. Naquele tempo, porém, a viagem era muito mais longa, com pouquíssimas opções de transporte – e muito mais cara. Por conta disso, Paulo só visitava a família nas férias de fim de ano. E sempre que voltava para casa, sentia que tinha tomado a decisão certa ao optar pelos estudos.

    O rapaz foi desenvolvendo senso próprio de responsabilidade. E assim passou pelos sete anos do colégio agrícola, até que chegou o momento do vestibular.

    “Eu não podia voltar para trás. Tenho que pegar esse ônibus. Se eu vou sentar na janela ou na primeira fila, isso não é relevante. O que eu quero é estar dentro do ônibus”

    Escolheu engenharia agrícola. O critério: o número de candidatos por vaga. Paulo, então, embarcou em mais uma jornada, agora na Universidade Federal de Pelotas.

    Mãos sujas de giz

    Dez horas da noite, aula de matemática em um cursinho pré-vestibular. Embora empenhados em estudar para entrar na faculdade, os alunos já estavam cansados do dia de trabalho – e com a cabeça cheia dos exercícios dos primeiros horários.

    Entra na sala, então, o professor Paulo. Sim, o rapaz que fugiu da enxada ainda tinha as mãos finas – porém, agora sujas de giz. Essa foi a maneira que ele encontrou para ter uma vida um pouquinho melhor nos últimos anos da faculdade.

    Dar aula não foi a primeira tentativa. Antes, ele se aventurou a jogar futebol amador, em um esquema pouca coisa melhor do que a várzea, em campeonatos locais defendendo Grêmio Esportivo Reservense.

    Como professor, os ganhos eram maiores – assim como o desafio. Afinal, manter a atenção dos alunos em uma aula de matemática às dez da noite não é para qualquer um. Para prender a atenção dos alunos, Paulo procurava deixar suas aulas divertidas, criava anedotas com os personagens dos problemas, fazia os alunos rirem. Assim, mantinha-os acordados.

    No futebol, Paulo se aventurou no Grêmio Esportivo Reservense, mas opção de dar aulas de matemática em curso pré-vestibular se mostrou mais rentável e o ajudou a concluir os estudos na faculdade de Engenharia Agrícola

    Em paralelo, foi desenvolvendo seu lado orador, de quem fala com desenvoltura, cativa qualquer tipo de plateia – e que seria uma de suas grandes marcas ao longo da carreira.

    Engenheiro com salário-mínimo

    Paulo pediu demissão do cursinho no dia seguinte à sua formatura. Agora ele precisava entrar na área. Diferentemente de seus colegas, não tinha família com grandes propriedades, não tinha conhecidos influentes, nada.

    No último ano, havia organizado uma semana acadêmica, para a qual convidara o professor Anivaldo Pedro Cobra, que atuava como diretor do Centro Nacional de Engenharia Agrícola, local que fazia ensaios de máquinas e testes dos mais diversos em Iperó, interior de São Paulo. Ligou para ele e conseguiu estágio com cama, comida e um salário-mínimo.

    Em vez de orgulho, porém, Paulo virou motivo de chacota dos colegas.

    Formado em Engenharia Agrícola, aceitou de imediato emprego com condições consideradas inadequadas pelos colegas de curso. Não se incomodou e seguiu adiante

    “Como assim, um engenheiro formado trabalhando por um salário-mínimo? Você é uma vergonha para a categoria!”, diziam. Mas o rapaz era resiliente: se era por um que ofereciam, era por um que ele trabalharia.

    A sorte virou logo esse jogo. O Centro Nacional de Engenharia Agrícola firmou parceria com uma instituição estrangeira e teria que enviar um profissional para fazer treinamentos no exterior. O país em questão era a Alemanha. Paulo não apenas era o único da equipe que falava alemão, como também essa foi sua primeira língua.

    Deixou de ser estagiário, foi contratado como técnico de ensaios de máquinas e partiu para a Europa, onde ficou quase um ano estudando a tecnologia de lá. E foi assim que o rapaz entrou no ramo de máquinas agrícolas – para nunca mais sair.

    Após um ano na Alemanha, onde foi enviado por ser o único da equipe a conhecer bem a língua daquele país, voltou ao Brasil e nunca mais saiu do ramo de máquinas agrícolas

    Casamento na vida pessoal e profissional

    O caminho de Paulo Herrmann cruzou com o da John Deere no fim dos anos 1990. Na verdade, esse foi seu segundo casamento, pois o primeiro aconteceu dez anos antes, em 1980, com Vânia Herrmann, sua companheira desde então.

    Ele trabalhava como diretor de planejamento e relações corporativas em uma grande fábrica de equipamentos agrícolas muito forte em tratores. Naquele momento, a John Deere tinha 40% de participação na SLC e só produzia colheitadeiras.

    A companhia tinha intenção de se instalar de vez no Brasil e passar a fabricar aqui seus tratores. A americana solicitou então à SLC que descobrisse um profissional especializado em tratores para conduzir essa empreitada.

    Vânia e Paulo se casam e, dez anos depois, ele aceita trocar de emprego para trabalhar em um cargo menor, mas com enorme desafio

    Paulo aceitou o convite – mas não exatamente por ser a John Deere. Afinal, os equipamentos da marca não estavam no Brasil, enquanto as demais estavam pelo menos desde a década de 1960. “Saí como diretor de uma empresa líder para ser gerente em uma empresa que era uma promessa. O desafio me motivou a recomeçar do zero”, conta. E o desafio logo se tornou realização.

    “Nunca fui de ficar planejando o futuro. Sempre me concentrei em fazer bem-feito o que estou fazendo agora. Em momento algum eu achei que esse cartão de visita era importante. Em momento algum eu entrei aqui porque isso poderia me levar onde estou hoje. Eu vim para trabalhar. Essas coisas são como o centroavante: você precisa estar lá no momento que a bola chega. Não adianta chegar antes e não adianta chegar depois. Não adianta planejar. Você tem que entregar – e ter sempre a certeza de que tem alguém observando o seu trabalho”.

    Uma das grandes marcas de Paulo é seu trânsito em todo o mercado – o que lhe rende uma infinidade de convites para dar palestras e participar de eventos.

    “Quando comecei a crescer dentro da John Deere, uma das coisas que coloquei na cabeça foi que eu precisava ter uma equipe boa, com pessoas melhores que eu em suas atribuições, e que tínhamos que tornar o Brasil o segundo maior mercado do mundo para a John Deere”, destaca.

    A formação de uma boa equipe foi uma de suas preocupações desde que começou a assumir novas responsabilidades na John Deere

    Para ele, não bastava a empresa ser reconhecida como líder de vendas de máquinas. “Em um país com tantos desafios, tínhamos que ser uma empresa referência, seja para assuntos relacionados ao meio ambiente, responsabilidade social ou outro tema relevante envolvendo o setor”.

    Doutor honoris causa

    Em agosto, Paulo Herrmann recebeu o título de doutor honoris causa pela Universidade Federal de Lavras. “Estou me beliscando desde o dia em que recebi a ligação, porque não estou acreditando”, conta. Essa honraria é concedida por universidades a personalidades por sua contribuição para o progresso das ciências que tenham beneficiado de forma excepcional a humanidade ou o país. E a indicação de Paulo foi aprovada por unanimidade pelo conselho da universidade.

    Para o garoto das mãos finas que foi estudar para fugir da enxada, essa foi uma honraria sem tamanho. “Se você fizer bem-feito, as coisas virão automaticamente. Sempre tem alguém observando você, alguém avaliando. E foi isso que aconteceu”, assegura.

    O título de doutor honoris causa coroa a trajetória de sucesso de Paulo, que testemunhou grande parte da evolução da agricultura do País. “Eu vi todo esse Brasil desabrochar”, afirma.

    Dizia-se nos anos 1980 que a população cresceria em proporção geométrica, enquanto a produção de alimentos cresceria em progressão aritmética. Ou seja, em algum momento chegaríamos a um ponto em que não haveria alimentos para todos.

    Mas isso não aconteceu: “Em 1970, o Brasil tinha 90 e poucos milhões de habitantes, e a agricultura não conseguia abastecer a população. Havia a necessidade de importar. Cinquenta anos depois, nós alimentamos 211 milhões de brasileiros e exportamos comida para mais 800 milhões ao redor do mundo”. E esse salto está longe de atingir o ápice.

    Agora doutor honoris causa pela Universidade Federal de Lavras, reconhecimento a quem sempre acreditou no desenvolvimento agrícola do Brasil

    Durante o treinamento de Paulo na Alemanha, o Brasil tinha uma defasagem tecnológica de cerca de 30 anos em relação ao primeiro mundo. Hoje, isso é coisa do passado: a tecnologia daqui não deve nada para a que existe lá fora, e o campo conectado já é uma alternativa promissora de carreira para muitos jovens, com inovação que não para de avançar.

    “Hoje, um trator tem mais tecnologia que a Apollo 11, que levou o homem à Lua. E sinto que existe um grãozinho meu nessa evolução toda”.

    Com bom humor, ele brinca que estudou porque, quando olhava para trás, via uma enxada correndo atrás. “Mas as coisas mudaram muito: antes, se você não estudasse, ia parar na lavoura. Hoje é o contrário: para parar na lavoura, você precisa estudar”.

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